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sábado, 25 de junho de 2011

O Estranho

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Até os meus cinco anos eu não tinha percebido nada. Havia um muro à minha volta, ninguém falava naquilo, todo mundo me apertava as bochechas e as tias viviam repetindo lindinho lindinho.

Daí que achei que eu era isso mesmo, o lindinho das tias. Mas eu via nos olhos dos adultos um brilho estranho, as conversinhas às minhas costas, os risos.

Os risos. Muitas vezes, tonto, eu ria junto. Aí eles riam mais ainda, ficavam vermelhos que até as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Era muito engraçado.

Mas eu comecei a desconfiar de tanta graça. Era bom demais, e eu, no fundo, não me achava tão engraçado assim. Foi aí que eu percebi que eles riam de mim.

No início foi uma sensação incômoda, e eu não fiz a menor questão de esconder. Quanto mais eles riam mais eu chorava. Até que minha mãe falou algo que não me tranqüilizou, mas me deu a exata noção do futuro:

- Não liga pra eles. Vai ser sempre assim. Ou você aprende a lidar com isso ou eles acabam com você.

Uma constante na minha vida: entrar num restaurante e pedir um bife com fritas era um escândalo. Os outros me olhavam de lado, alguns me repreendiam abertamente, uns tantos riam e riam. A frase da minha mãe sendo repetida mentalmente, dia após dia.

Comprar uma calça era difícil, eu precisava mandar fazer. Assim também com as camisas. Os sapatos eram raros. As coisas mais idiotas do cotidiano exigiam de mim duplo esforço. A única coisa fácil era a minha indignação.

— Pai, quero te apresentar uma pessoa — falou a minha primeira namorada.

O sujeito olhou pra mim, a boca aberta, os olhos arregalados de susto.

— Isso aí? — ele perguntou. — Você tá namorando isso aí?

No mesmo dia o namoro acabou. E não foi por falta de amor; ela não merecia passar o que estava passando ao meu lado, uma humilhação atrás da outra. Ela não precisava disso.

Estou sozinho hoje, bem mais velho do que eu imaginava, e mamãe já se foi faz tempo. Dela guardo apenas um retrato e a frase que me situou no mundo. Não sinto mais raiva, nem ressentimentos, vivo apenas, da melhor maneira possível. O tempo me deu a sorte de saber que não é fácil ser humano neste mundo de cavalos. 
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Por Claudio Parreira. 
Também o conheci n'O Bule e gostei muito do texto. 
Twitter: @claudioparreira e blog para quem queiser conhecer mais. 

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sábado, 11 de junho de 2011

Blackbird

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Há uma triste garoa
há um réquiem de muitos silêncios
há uma homenagem solene
para uma revoada de melros mortos
Há alguns suicídios por tédio
há a gênese de novos tumores
há escolha para síndicos de prédios
para uma revoada de melros mortos
Há uma dança macabra
há um cortejo fúnebre
há amigos de muitas solidões
para uma revoada de melros mortos
Há um chorar condoído
há rumores apocalípticos
há adágios para o nascer do dia
para uma revoada de melros mortos
Há glaciares se derretendo
há muitos olhares incrédulos
há destinos se precipitando
para uma revoada de melros mortos
Há uma bandeira à meio-mastro
há transatlânticos ancorados no porto
há rancores multiplicados entre nuvens
para uma revoada de melros mortos
Há canções para o morrer da noite
há tremores de mais asas débeis
há impenetráveis cegueiras vivas
para uma revoada de melros mortos.

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Por Reinaldo Ramos. Ele tem um blog para quem se interessar por conhecer mais do trabalho.
Conheci esta poesia em visita ao coletivo de literatura O Bule, recomendo muito a visita!

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